Mulheres no Cinema . Retrospectiva Malva

A mostra Mulheres no Cinema: Retrospectiva Malva apresenta uma programação gratuita de filmes nacionais contemporâneos que se destacaram nas últimas cinco edições da Mostra de Cinema Feminista. Exibiremos 28 filmes programados a partir da sua relevância na construção do cinema nacional contemporâneo salientando também suas contribuições às pautas dos feminismos em voga. Foram contempladas obras oriundas de 12 estados do país, nos proporcionando um leque de diversidade sobre as realizadoras(es), indígena, quilombola, negra, branca, trans, não binária, lésbica, hetera. A programação está distribuída em 10 sessões, possuindo paridade racial entre direções negras e brancas, 20% dos filmes contemplados com diretoras de Belo Horizonte e uma sessão com acessibilidade via legendagem descritiva. Cada sessão ficará disponível gratuitamente por 24 horas, das 00:00 às 23:59 de cada dia, através de um link exclusivo da mostra dentro da plataforma Cardume.

Cada sessão aponta um debate, uma proposta, um diálogo dentro de um recorte diverso e representativo que tentamos fazer sobre a produção contemporânea nacional. Destacamos composições que se posicionam e fazem uma reflexão em ditames por muitas décadas enraizados na história do pensamento cinematográfico. São obras que por si só constroem e explicitam olhares autênticos, opositores, insurgentes à manutenção do status quo branco, machista, racista, heteronormativo e elitista no cinema. Mulheres brancas independentes, mãe solas, prostitutas, presidenta, mulheres brancas perdidas, entediadas, encalhadas e que vão em busca de seus destinos; mulheres negras donas de si, donas de suas imagens, locutoras, militantes, mães solas, atrizes, doutoras e bacharéis em antropologia, mulheres negras com suas fantasias rasgadas, desoladas, revolvidas de dentro pra fora, colocadas em cena por direções brilhantes e premiadas. Mulheres no cinema implica também em pensar o cinema atuado por mulheres nas composições, curadoria, crítica, programação balizados por trajetos e acessos feministas. Por esse caminho, abarcamos também realizações de homens trans e pessoas não binárias, entendendo que são nos feminismos que a construção do espaço e quebra de barreiras no audiovisual seja também protagonizadas e exercidas por realizadores LGBTQIA+. Como bem explica Dê Kelm diretor do filme Soy “A primeira vez que participei da Mostra de Cinema Feminista eu me considerava uma mulher cisgênera. Passado um ano, mudei minha percepção de mim mesmo e agora me identifico como uma pessoa transmasculina não-binária. Por ser uma pessoa transmasculina, acredita-se que automaticamente passo a ter os mesmos privilégios de homens cis. Acontece exatamente o contrário, pois os homens cis não irão me acolher e muitos dos espaços aos quais pertenci até agora não me aceitam mais. Por isso clamo por mais espaços transfeministas, e pelo entendimento de que o feminismo não significa a supremacia das mulheres cis, mas sim o fim da opressão de gênero.”

Na caminhada que traçamos até aqui pela Mostra de Cinema Feminista entendemos que a proposta está em constante movimento. Que o feminismo em si não anda sozinho com suas lacunas e espaçamentos enraizados. Que sua constante atualização e o precário da sua interseccionalidade no real seja sempre reinventado e posto em cheque por nós mesmas. E que dentro de sua fragilidade, sejam montadas nossas prerrogativas e nossas assinaturas. Um espaço de diálogo e aprimoramento, nós mesmas em inumeráveis formas, olhares e raízes. Um espaço de pensamento e transformação das possibilidades de representação que culminem em nosso deleite, em nosso gozo. Apresentamos imagens de libertação, fora de composições da passividade e da exclusão, de origens distantes daquela do passado, imposta, que demarcam papéis, que apagam personagens. Obras que não temem o explícito, o horror, o bonito, o real, e não se limitando a uma simples reação ao apagamento, são criações de autoimagem e autosignificação, apontando a vasto território de possibilidades sobre o campo da representação no cinema.

Esse olhar para trás que a mostra se encontra agencia em nós também a não ceder a nenhum retrocesso, de seguirmos diante de produções belíssimas e históricas que já no presente nos apresentam outras narrativas, outros cinemas. Que já operam a libertação de preceitos dominantes do sistema de representação patriarcal e colonial que moldou o cinema do passado.

Apontamos para cinemas que nos liberte e nos reposicione. Sem padrões, sem iconografias falsas, obras que irrompem através de estéticas politizadas e substanciais de um tempo em ruínas, que servem de oxigênio para um país em chamas.