CURADORIA

O que se vê e como se mostra

 

A mulher é representada – no cinema e nas artes, em geral – a partir da perspectiva do ideal, seja ele dos céus ou dos infernos. Neste sentido, falar da mulher é falar do que não existe, é falar de como nós somos faladas. Instalada num lugar de objeto, a mulher ficava à mercê de representações a partir de um lugar que não a representava, paradigma de uma cultura machista e consumista. A Coletiva Malva se propôs o desafio de realizar uma mostra com a intenção de propagar um discurso mais combativo, mais resistente e mais adequado ao real.

 

Fazemos parte de uma rede amplificada de vozes que, hoje, cada vez mais, se autorizam discorrerem uma escritura ou pegar uma câmera e se fazerem ver: ver o que nós dizemos, como nos mostramos, ver entre imagens de arquivo e ficcionais, de onde, de fato, surgem as imagens. Representar a mulher pela mulher é conectar-se às memórias, ao corpo, à escrita de si, à imagem de si. Está ali sua história, seu estilo de narrativa, seu olhar.

 

Optamos por concatenar filmes que abordam a mesma temática numa mesma sessão ou no mesmo dia com o desejo de amplificar os diálogos, a partir da construção de debates cujo panorama social e político sejam contemplados. Trata-se de encetar um novo discurso, que ele produza um laço social diferenciado ao resgatar e nomear corpos e falas invisibilizadas e nesse sentido recusamos qualquer filme cuja abordagem seja violenta ou que reproduza opressão e violência. Neste sentido também foi pensada a arte para esta edição. A costura que desenha o nome da Mostra traz a marca inconfundível do feminino, mas que circula em lugares que antes não era permitido estarmos e demarca os novos laços que estão sendo gerados pelo trabalho que a agulha e a linha fazem juntas.

 

Ao contrário do que se possa supor devido ao recorte tão delimitado da Mostra – o feminismo – os filmes que temos recebido estão para além de serem filmes de tema. Encontramos com obras que contemplam temáticas de cunho social, político e econômico que abordam questões como genocídio de jovens negras e negros, cotas, ditadura, ocupação, movimentos sociais, LGBT, aborto, memória, tradições culturais, tráfico de pessoas, imigração, abuso sexual de crianças e mulheres.

Estamos percebendo, com o passar dos anos, que a importância da linguagem enquanto narrativa, o que se mostra e como se mostra, só faz emancipar o cinema feito por e com mulheres. Neste sentido, delimitamos que o que será também um requisito serão filmes onde é possível perceber o fazer com, seja equipe ou personagens.

 

A sessão de abertura do festival alinha filmes que demonstram essa questão. Fantasia de Índio, da diretora Manuela Andrade, nos revela uma cineasta em busca de sua ascendência indígena, a dificuldade de se encontrar vestígios para esse encontro com sua ancestralidade devido ao apagamento recorrente na história do Brasil sobre a questão indígena e o surgimento de uma construção de estereótipos e do imaginário em decorrência desse apagamento. É um filme que manifesta uma busca pessoal e que tem como parceiros um coletivo indígena – Ororubá Filmes.

 

Tentei, de Laís Melo, é um filme exemplar no que se refere ao respeito preconizado pelo olhar que a câmera nos proporciona, tornando-se cúmplice e companheira da personagem Glória, que representa uma das milhares de mulheres em situação de violência a que são submetidas pelos homens que amam. O estupro paira no ar, mas ele não é representado, encenado. Assim, o que o espectador vê é a concepção de uma cineasta de como tal temática é perpetuada pelo seu ponto de vista, com um trabalho exemplar de som em que os pontos de silenciamentos não são meras metáforas.

 

Uma sessão sobre o feminismo negro, marca e faz avançar com um debate após a sessão como o cinema feito por mulher negra tem sido recorrente e libertador. Este ano, a temática que esteve mais presente durante o processo de curadoria foi a questão racial trazendo a importância do lugar de fala de cada mulher negra que se faz presente neste contexto, abordando questões que vão desde sua origem e ancestralidade, passando por questões de gênero, como em Maria, memória como em Casca de Baobá, de Mariana Luiza, questões políticas e históricas como no filme Em busca de Lélia, de Beatriz Vieirah. Além de outras questões como a parceria amorosa, preconceito. Uma triste constatação é que, apesar de ter sido a temática recorrente nas inscrições, infelizmente ainda temos poucas realizadoras negras trazendo seus filmes.

 

Outro tema bastante abordado se refere à maternidade sob vários pontos de vista. A temática sobre o aborto e gravidez na adolescência é apresentada por dois filmes: Fervendo, de Camila Gregório e Las Mujeres Decidem, da diretora Xiana Yago. O filme Memorándum, de Jennifer Lara, nos mostra vestígios de violência e opressão em uma maternidade no Chile durante a ditadura. Ama, de Silvina Estéves, revela uma mulher e todo seu mal-estar relativos ao seu novo estado e Simbiose, de Júlia Morim, nos faz conhecer uma parteira e seu estilo encantador que trouxe ao mundo centenas de crianças. Para fechar essa temática, convidamos Fabiana Leite, diretora do filme Lírios não nascem da lei que traz como questão o encarceramento de mulheres e crianças em uma perspectiva diferente de outros filmes sobre o tema. O reconhecimento de uma personagem de que “falar dói” aponta para a escuta dos desejos e frustrações de cada mulher encarcerada com seu filho cuja voz é silenciada pelo sistema prisional vigente no Brasil.

 

Outro tema que a mostra privilegia aborda a questão da transexualidade. Iremos exibir dois filmes – Female to me , Tailor – de Cali dos Santos um homem trans, além de ter a honra de ter Maria, da diretora Elen Linth, na nossa programação. Um filme extremamente sensível à questão já que podemos perceber o reconhecimento de artistas transexuais, pois o filme leva o nome da personagem. Sim, Maria, mulher trans, protagoniza e eleva o curta à dimensão do sublime.

 

O audiovisual tem privilegiado que a dialética do olhar se faça presente quando somos bombardeadas pela imprensa corporativa ou pelo cinema hollywoodiano, onde se propaga o discurso totalitário. Uma curadoria pressupõe uma disposição, uma disponibilidade do olhar – ver e ser visto. O que vemos, o que queremos ver, como gostaríamos de sermos vistas são questões que nos colocam a trabalho.

 

A nós foram destinadas obras. E o nosso desejo é transmiti-las! A partir da imprevisibilidade e diversidade de conteúdo que chegaria, as sessões foram pensadas considerando o cinema como instrumento de memória, transmissão e transformação. Com cerca de 380 filmes inscritos, entre documentais e ficcionais, longas, médias e curtas, fizemos o exercício de pensar as questões que nos chegam pelas imagens. E o cinema dessas mulheres pode deixar entrever, no entre-imagens ou nos silêncios, o que não pode ser visto, os traumas da violência e da opressão, o que ficou exatamente no tempo vazio, entre um frame e outro.

 

É a partir daí que nos re-inventamos.

Agradecemos as realizadoras por esta vivência!

Daniela Pimentel