Arte gráfica, cinema e curadoria

 

Que tem valor e coragem;

valorosa, intrépida, decidida, destemida, resoluta, ousada: VALENTE.

 

Em sua quinta edição a Coletiva Malva decide homenagear Mulheres Valentes que fazem história, e que através de sua luta conquistam espaços e alternativas para as mulheres brasileiras. Mas como selecionar as homenageadas ? Esse processo é desafiador devido ao grande número de resistências que ecoam nos feminismos. Para Coletiva Malva é de essencial importância representar as nuances e particularidades que atravessam cada uma delas. Sendo assim, um critério foi criado: contemplar as temáticas levantadas pelos filmes que compõem a mostra de cinema feminista desse ano.

Ao todo cinco pautas foram eleitas : O afrontamento das mulheres negras que lutam para barrar o racismo, o machismo estrutural e a opressão histórica. A luta das mulheres indígenas pelo direito à terra  e pela preservação socioambiental. A resistência da comunidade LGBTQI+ pela busca da inclusão ao mercado de trabalho, combate ao lesbicidio. A luta anti-manicomial que busca garantir os direitos das pessoas com sofrimento mental. E por fim o combate à violência contra a mulher que registra 500 mil casos por ano, alarmante dado fornecido do fórum Brasileiro de segurança publica de 2017.

O que funda o ato de valentia feminina? Ativismo, alegoria primordial para se enfrentar o patriarcado, logo as cinco mulheres homenageadas usam sua luta para ativar novas formas de existência e por que não dizer re(e)xistencia. Seja subindo no palanque, inspirando leis, militando pelas suas causas, essas personalidades extraordinárias representam o valor e a coragem que é preciso ter para ser mulher de luta. As homenageadas são : Indianara Siqueira, Maria da Penha, Marielle Franco, Nise Da Silveira e Sônia Guajajara.

 

Luta Indígena Sônia Bone Guajajara é ativista pelos direitos dos povos indígenas, mãe de três filhos e é originária da etnia Guajajara/Tentehar que habitam a Terra Indígena Arariboia, no Maranhão. Formada em Enfermagem e Letras pela UEMA e Medicina Alternativa pelo IPPH sua militância indígena e ambiental começou cedo, nos movimentos de base, que em poucos anos ganhou projeção internacional através de sua luta pelos direitos dos povos originários no país.

Passando pela coordenação das organizações e articulações dos povos indígenas no Maranhão (COAPIMA) e pela coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), Sônia é hoje coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e tem voz no Conselho de Direitos Humanos da ONU onde já encaminhou denúncias às Conferências Mundiais do Clima (COP) e ao Parlamento Europeu.

Sendo uma das maiores lideranças ambientais do país, unificando mais de 305 povos em torno de suas pautas, Sônia tornou-se a primeira candidata de origem indígena à vice-presidência da república nas eleições de 2018.

Conhecida dentro e fora do país, Sônia reivindica melhores condições para as comunidades originárias que há 5 séculos sofrem com conflitos diretos com madeireiros e posseiros. A demarcação das terras indígenas é a principal pauta defendida pela ativista, convergindo de forma essencial para a preservação das tradições e dos modos de vida indígena no Brasil. Para Guajajara é fundamental dar visibilidade e reconhecimento à cultura, linguagem e tradições indígenas. No Brasil, existem mais de 180 línguas e dialetos nativos, tornando as comunidades originais brasileiras as mais diversas e plurais do mundo.

Sônia Guajajara continua com sua luta pelo retorno da Fundação Nacional do Índio (Funai) à alçada do Ministério da Justiça (MJ) e das competências do órgão sobre as demarcações de terras, direito esse garantido pela Constituição Federal

“É muito difícil ser indígena hoje e mais difícil ainda ser liderança, porque as forças políticas e econômicas querem dominar, manipular e decidir, e para isso vale roubar, matar, invadir e destruir, como acontece com o meu povo no Maranhão. Hoje vivemos em 11 Terras Indígenas, na região onde sempre foi a nossa terra originária. Embora nossas Terras tenham cumprido todo o rito da demarcação, do registro e da homologação, enfrentamos uma constante situação de risco dentro da nossa própria casa.”

 

Marielle Franco, mulher negra, mãe, cria da Maré defendia através de sua luta cotidiana que a forma dos corpos pretos e marginalizados terem suas lutas e reivindicações garantidas seria através de suas próprias vozes pela luta da quebrada, pela resistência popular e ocupando a política institucional. Já aos os 11 anos de idade, começou a trabalhar junto dos pais como camelô, na adolescência foi dançarina do grupo de funk Furacão 2000 e aos 18 se tornou educadora infantil em uma creche. Formou-se como Socióloga e fez mestrado em Administração Pública pela UFF, cujo o título de sua dissertação foi ‘ UPP: a redução da favela em três letras’ com livro publicado atualmente. Dentre tantas frentes, Marielle também militava pelas causas LGBTIQ, assumidamente bissexual, mudou-se para o bairro da Tijuca para morar juntamente à sua companheira Mônica Benício e sua filha Luyara; o casamento oficial das duas estava marcado para o final de 2018.

Iniciou sua militância pelos direitos humanos após a perda de uma amiga vítima de bala perdida, consequência direta da violência policial ao enfrentamento do tráfico de drogas dentro das comunidades. Em 2006 Marielle inicia sua carreira na política ao lado do amigo Marcelo Freixo, atualmente Deputado Federal. Com a eleição de Freixo, Marielle assume a coordenação da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa e, nesta posição, prestou auxílio jurídico e psicológico a familiares de vítimas de homicídios e de policiais vitimados.

Em 2016, disputa pela primeira vez um cargo público sendo eleita como a segunda vereadora mais votada do país com mais de 46 mil votos. Na Câmara Municipal presidiu a Comissão de Defesa da Mulher e se tornou relatora da Comissão para Monitoramento da Intervenção Federal no Rio de Janeiro em fevereiro de 2018. Se posicionava de forma contundente contra da intervenção federal e denunciava constantemente os abusos policiais e as violações aos direitos humanos ocorridas nesse processo. Como vereadora, em pouco mais de um ano, seu mandato redigiu e firmou dezesseis projetos de lei sendo dois aprovados.

No dia 14 de março de 2018 Marielle e seu motorista Anderson foram brutalmente assassinados dentro do carro estacionado em via pública. Em 12 de março de 2019, a polícia prendeu dois policiais militares suspeitos de participação no assassinato. Segundo a denúncia do Ministério Público, que atuou conjuntamente com a polícia, o sargento reformado da PM Ronnie Lessa teria sido o autor dos disparos que mataram Marielle e Elcio Queiroz ex-PM teria sido o condutor do veículo usado no crime. Ainda conforme o MP, o crime teria sido meticulosamente planejado, com aproximadamente três meses de antecedência.

A pergunta que não quer calar até hoje é:

QUEM MANDOU MATAR MARIELLE???

“As rosas da resistência nascem no asfalto. A gente recebe rosas, mas vamos estar com o punho cerrado falando de nossa existência contra os mandos e desmandos que afetam nossas vidas”